domingo, 18 de dezembro de 2011

Alternativa para o mau humor





Estou sempre me descobrindo. A gente vive se descobrindo, se é que posso falar por todos. De tempos em tempos, me deparo com uma nova realidade, uma verdade, uma descoberta sobre mim mesmo, um outro eu, sem que se leve isso ao exagero.

Não chega a ser aquela coisa que surpreende, que faz a gente pensar coisas do tipo: "ah, olha só, eu não sabia que era capaz disso!" Não, não chega a tanto. É claro que isso já aconteceu comigo. Contigo também, muito provavelmente. Bom, tanta ladainha só pra dizer que cozinhar me acalma. Me acalma pra valer. Funciona como uma terapia.

Eu sempre soube que cozinhar provoca algo bom, muitas vezes é reconfortante. Até cozinheiro, que pega no batente mais de oito horas por dia, já declarou isso.

O escritor austríaco Johannes Mario Simmel, no seu livro que fez grande sucesso no passado, Nem só de caviar vive o homem, escolheu como premissa essa ligação. Na narrativa, sempre que o personagem principal se via metido em encrencas ou que precisasse tomar uma decisão, se enfiava na cozinha e fazia algo apetitoso e requintado. Cozinhando, encontrava uma saída certeira e definitiva.

Percebi que no meu caso cozinhar tem sua ação terapêutica.

Lembro-me claramente de um determinado domingo em que havia acordado inquieto, irritado, e nem tinha motivos pra isso. Tinha dormido mal, sei lá, só sei que estava de bico. Detesto me sentir assim. Fico mais acabrunhado quando não há motivos. Não sou daqueles que acorda mal humorado. Muito pelo contrário. Nem um dia nublado, frio, chuvoso, me provoca reações negativas. Simplesmente, estava de cara virada. E nem devia, pois já tinha espiado pela janela do quarto que o domingo estava radiante, o céu azulzinho; tudo brilhava, as árvores estavam mais verdes que nunca; os pássaros voavam em volta do meu prédio cantando alegremente; as nuvens pareciam de algodão. Enfim, um dia espetacular. E eu ali, todo largadão na cama.

Tencionava planejar um passeio para melhorar meu astral, quando a Giulia, minha filha, entrou no meu quarto, toda alegre, com um sorrisão lindo estampado no rosto, chegou pertinho de mim e disse:

“Pai, hoje é domingo! O que você vai fazer de almoço?... Posso te ajudar?”

Ela não sabia, e nem eu, mas estava salvando meu dia!

Escolhemos o prato principal, compramos o que precisava e fomos pra cozinha. Eu e minha superauxiliar, toda solícita como sempre, preparamos um Picadinho na Cerveja.

A cada ingrediente adicionado, fui percebendo como me acalmava. Nem picar as cebolas me incomodou. O cheiro e aquele chiado peculiar da cebola fritando na margarina, hummm... Já estava me animando!

Minha ajudante colocava os pedacinhos de carne aos poucos, e a cada vez que eu girava a escumadeira para misturar, o aroma me inebriava. Um pouco de sal e de pimenta-do-reino, duas folhinhas de louro, para provocar meu olfato, para não dizer do apetite... E chegava a hora dela! A loirona incomparável! Quando a despejei, lentamente, o convidativo líquido dourado da cerveja formou uma névoa me embriagou de tal maneira que me vi sorrindo à toa, flutuando entre a mistura agradável de sabores. Uou... Só de lembrar me dá vontade de tomar uma agora!

Já quase no fim, esperando a carne ficar macia, botei umas musiquinhas para tocar – musiquinhas, não! Que se faça justiça, musicões! Pois o CD Acústico MTV - Kid Abelha, é tudo de bom!

Abri outra latinha de cerveja, dessa vez era para mim. E entre um gole e outro, tirava a tampa da panela para me deixar ser invadido pela deliciosa fumacinha que escapava toda frenética, como se tivesse vida própria e quisesse atrair todos os estômagos famintos da redondeza.

Logo veio o gran finalle: a hora de botar o creme de leite. Uma mexidinha, e pronto.

No fim, eu já era outro, leve, animado. E faminto, claro!

Em dias de mau humor, antes desse dia, não me atrevia ir para a cozinha. Em dias assim, eu suspeitava que nada saísse gostoso, tragável. Ledo engano.

Foi o melhor Picadinho na Cerveja que já tinha feito. Adicionados ao prato, teve o toque da alegria, outrora irritação; teve a pitada da motivação que antes era apenas inquietação sem motivo; e teve o tempero principal: o incentivador e belíssimo sorriso da minha princesa.

Não sobrou nada pra janta.


Márcio Luiz Soares

* * *
Antes que peçam a receita de novo - tá aqui.
Tem também um aperitivo do Acústico MTV do Kid Abelha aqui.
A cerveja fica por tua conta e se quiser me convidar pra ajudar a tomar...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dose certa





Cinema. Sou fascinado pela tela grande. A sala escura, o som alto, um monte de gente reunida, rola um astral bacana. Não se trata da mesma sensação como a de uma partida decisiva de futebol em estádio lotado ou quando estamos na platéia acalorada e vibrante de um grande show musical - nem se compara, mas é igualmente gostosa. Principalmente quando o filme tem a dose certa de emoção, fazendo a gente sair refletindo e comentando com todo mundo.

Sei de algumas pessoas que não curtem ir ao cinema, por um ou outro motivo (acredite, elas existem!!!). Detestam mesmo. Nem é por considerarem um entretenimento caro (que de fato é), elas sentem, realmente, uma certa aversão. Algumas pessoas apenas não querem trocar o conforto do lar. Para quem tem uma sala de cinema dentro de casa, fica fácil. Não é o meu caso, pelo menos não ainda... Mas também não trocaria, jamais!

Tem filme feito pra cinema que nada perde na tela pequena de uma televisão, no entanto, seja numa tela de cinema ou numa tela de celular, ou de um iPad, o legal é desfrutar de um bom filme e se divertir.

Certa vez, vi um filme no cinema, daqueles com a dose certa de emoção, e logo que saiu em DVD corri pra pegar. Numa determinada cena, senti a diferença do tamanho da tela, mas absorvi com o mesmo prazer da telona, isso porque o filme fala por si só - a imagem, a música, a viagem da câmera, agindo como cúmplices, nos conduzindo para bem longe em nossos pensamentos, sem se desgrudar da ação e sem fugir da proposta do filme.

Refiro-me ao filme Mar Adentro, de Alejandro Amenábar. Com a primorosa e convincente atuação de Javier Bardem. Baseado numa história verídica, o filme abocanhou o Oscar de melhor filme estrangeiro (em 2005, se não me engano), e mais de uma dezena de outros prêmios na Europa. Para quem ainda não viu, passe na locadora. Quem já viu, que tal rever? Vi três vezes e a cada repetição uma nova descoberta.

A cena que mencionei acima, expressa o tamanho da grandeza em que um filme bem feito, com ótima direção de fotografia, capaz de fazer a gente ficar impressionado, surpreso e satisfeito, fazendo valer cada centavo do ingresso. O filme é muito mais que essa cena, que nada mais é do que um recurso simbólico, uma tentativa certeira de nos fazer olhar para dentro e para fora do outro. Na verdade, a emoção será maior ao entender o que representa a viagem que a cena mostra, mas só vendo o filme todo.

Espero que você sinta a mesma emoção que eu senti durante todo o filme.

Segue, então, um aperitivo. Em tela pequena.


Márcio Luiz Soares


video

Se quiser ver no Youtube, numa tela maiorzinha, clique aqui.